- Você também ainda vai abastecer seu carro em casa.

Mitos do Carro Elétrico

Derrubando falsas narrativas sobre o carro elétrico

42w ago

1.4K

Pouca gente se deu conta que é saudável termos uma concorrência - combustão x elétricos. Ambas as tecnologias surgiram há mais de 100 anos e ainda estão competindo, já passaram fases estagnadas, e agora estão em pleno desenvolvimento. Hoje temos a Tesla como a principal marca neste nicho, outros players estão entrando na briga, mas no passado outros também já tentaram inovar e não tiveram sucesso.

Público alvo

Boa parte dos motoristas que você encontra na rua não sabe nem quantos cilindros o motor possui! São pessoas comuns que usam o carro apenas como condução diária, para o trabalho, faculdade, levar filhos na escola, etc. A maioria das pessoas escolhe o carro que leva de A a B custando menos, busca um carro com um mínimo de conforto para andar nos engarrafamentos da cidade. Muitas dessas pessoas sequer lembram de fazer revisão do carro, e o usam como um mero bem descartável até dar de entrada em um carro novo em não mais que 5 anos.

Para o perfil de motorista mediano/iniciante, o carro elétrico se adequa perfeitamente, pela conveniência, por ser mais fácil de conduzir, torque abundante, não precisa de marchas, requer muito menos manutenção, nem mesmo trocar óleo. Para um carro elétrico, quanto mais lento o trânsito, maior será a economia, pois o carro só consome quando está em movimento. Elimina-se o velho problema de superaquecimento no anda-e-pára, como é comum nos carros a combustão mal cuidados.

No uso diário, basta carregá-lo à noite para rodar no trajeto do dia a dia na cidade. Uma vez que estes possuem 300 a 400 km de autonomia por carga, são poucas as pessoas que precisam rodar mais de 100-200 km por dia. O uso como Táxi/Uber e car sharing, em trajetos curtos no centro da cidade, também é uma opção a considerar para ir de elétricos.

Entretanto, o uso na Estrada é outra história. Considerando a baixa autonomia e ausência de pontos de recarga, e os longos tempos no carregamento, são fatores que ainda não são o forte dos carros elétricos. Para um uso mais esportivo, pista e competições, também não faz muito sentido. Há prós e contras de acordo com o perfil de uso.

Custo de uso e manutenção

Um Tesla Model S consome 200 Wh por km. Um BMW i3 consome 160Wh por km. Pagando R$ 0,60 por kilowatt-hora, 200 kwh custam R$ 120, para rodar 1000 km. Para se ter uma ideia, 200 kwh equivale ao consumo mensal de 2 aparelhos de ar condicionado pequenos em uma residência.

Comparando, a gasolina custa 4,39/L, o consumo varia de 10 a 20 km/L. A cada 5 a 10 mil km precisa trocar óleo e filtro, e a cada 30 mil km trocam-se velas, e dependendo da revisão, outras peças de motor. Para rodar 100.000 km em um elétrico custa R$ 12.000,00 (a 200 Wh/km); e com gasolina: R$ 43.900,00 (a 10 km/L, sem contar a manutenção).

Em 10 anos, ou 200.000 km a economia chega a R$ 63.800,00. Se somar as trocas de óleo, velas e filtros, aproxima-se de R$ 70.000,00 fácil. Há de se considerar também o desconto de IPVA, quando disponível no estado.

Após os 200.000 km, é provado que as baterias ainda estão com pelo menos 80% da capacidade. De acordo com dados coletados pela Bloomberg de membros do Tesla Motors Club, a degradação é de apenas 1~2% nos primeiros anos.

Convenhamos que num carro a gasolina, a essa altura tipicamente, o motor já estaria fumando ou rajando, em vias de ir à retífica.

A bateria de um carro elétrico supera a vida útil do próprio carro, são projetadas para durar 10 a 15 anos. As fabricantes dão garantia de 8 anos, 100 a 200 mil milhas, e também recebem o pack usado para reciclagem à base de troca na reposição.

A troca do pack de baterias ocorre na faixa dos 500.000 km. Nos EUA, um módulo da bateria do Leaf custa US$ 8,5k na concessionária Nissan. Cada módulo do pack de baterias da Tesla custa US$ 7~8k novo e US$ 1~5k usado. Ainda não sabemos o quanto será o valor dessa reposição aqui no Brasil. Há valores controversos sendo divulgados em alguns boatos da internet, mas estes são os valores que pude levantar para Tesla, Nissan e BMW.

Outro detalhe que poucos conhecem, que na maioria dos VE, os packs de baterias possuem sistema de arrefecimento a água, o que prolonga consideravelmente a sua vida útil. Diferentemente de um aparelho celular ou notebook. O ciclo de uso de um celular é diferente de um carro elétrico: o celular é recarregado até 100% e usado até esgotar diariamente, o carro usado em trajetos curtos não chega a usar toda a bateria em um dia.

De resto, a manutenção é absurdamente mais simples. Não há nenhuma peça de desgaste interna no motor. O rotor não possui as famigeradas escovas. As pastilhas de freio duram muito mais, por conta da frenagem regenerativa. A manutenção das rodas e suspensões permanece exatamente a mesma de um carro comum. Nisso, a quase ausência manutenção de um elétrico não dá lucro para a montadora nem para o mercado de reparação, a própria margem de lucro da fabricação do veículo em si é quase inexistente.

Eletricidade

Energia elétrica tem variadas formas de produzir: solar, eólica, hidrelétrica, nuclear, etc. Até a partir de lixo. Em todas há algum nível de impacto, alguns meios são um pouco mais limpos e outros nem tanto.

Na perspectiva do custo, compare o preço do kWh e do litro da gasolina, 1 kWh é uma fração do preço de 1 L de etanol ou diesel. Pesa contra os combustíveis os constantes aumentos do preço nos postos, enquanto a tecnologia elétrica pode se tornar competitiva no longo prazo.

Os painéis solares ainda são caros, mas estão ficando cada vez mais comuns, e podem ser instalados em qualquer telhado, de qualquer empresa ou residência. A grande sacada do elétrico é que você mesmo pode instalar o painel solar na sua casa, e manter o seu daily driver "abastecendo" com sua própria energia.

Petróleo

Sabemos que o petróleo não chega magicamente no posto em forma de gasolina. O Petróleo só tem um ciclo, não renovável e danoso, desde a extração, o processamento na refinaria e a distribuição até os postos. O petróleo não pode ser reciclado depois de queimado.

Um carro convencional em toda a sua vida útil pode chegar a consumir de 20.000 a 50.000 litros de gasolina e mais de 200 litros de óleo. Calcula-se que para cada litro de gasolina consumido, 2,8 kg de carbono são emitidos. É um produto que seu fim é ser queimado em motores que só aproveitam 30% de seu poder calorífico, e por fim gerar sujeira e fuligem na cidade.

Por ser um recurso finito e de produção limitada a alguns países (a grande maioria vem dos árabes e demais países OPEP), depende de um mercado instável politicamente, cartelizado, corrompido e adulterado em vários segmentos. A gasolina e diesel tendem mais a subir de preço do que baixar ao longo dos próximos anos. Para os demais países que não produzem petróleo, é necessário importá-lo. Nesse caso é uma saída vital aos governos destes países, quebrar o monopólio de dependência de uma única fonte de energia.

Contudo, o petróleo continuará sendo um recurso importante e necessário no futuro, mas será mais viável usar petróleo apenas para derivados que não sejam combustíveis.

Termelétricas

Obviamente que se ainda são utilizadas usinas termelétricas ou geradores para produzir eletricidade, de nada vai adiantar. Para que haja benefício, é preciso migrar a matriz para as fontes renováveis. Mas se a geração da energia ainda é baseada em carvão e diesel, o problema é da rede, não do carro elétrico. Como já mencionei, a energia pode vir de outras fontes que não sejam apenas carvão e óleo.

Ainda que, uma usina termelétrica fora do centro da cidade, embora não seja a melhor solução, permite ter muito melhor controle dos resíduos gerados e impactos causados. Mudando o local da poluição irá melhorar um pouco o ar nos centros das cidades. A usina também tem mais recursos para tratar/filtrar os resíduos da queima antes de liberar partículas no ar, e poluir menos esse outro lugar.

Outra vantagem, uma termelétrica hoje que produz eletricidade com gás natural e biomassa, tem uma eficiência térmica mais alta em comparação a um motor a gasolina de um carro popular mediano em circulação na cidade.

Baterias de lítio

A fabricação de um carro, de qualquer forma, depende dos mesmos materiais: da mineração de aço, alumínio, derivados de petróleo, etc. Ou seja, a poluição da produção do carro em si permanece equivalente.

A grande diferença que entra é o lítio, que vem dos salares. Embora também exista um monopólio de alguns poucos países que produzem lítio: Bolívia, Chile, Austrália, China, Canadá, etc. Se não forem tomados cuidados, podemos incidir nos mesmos problemas que cometemos com o Petróleo. O Brasil também possui minas que possuem lítio, exploradas pela Companhia Brasileira de Lítio, e a startup Sigma.

É verdade que a mineração dos elementos da bateria também causa impacto na natureza, não existe solução perfeita. Entretanto, tal impacto se ameniza ao longo da vida útil do veículo. A poluição na fabricação de 1 bateria não será superior aos 20.000 litros de combustível que o veículo consumirá na sua vida útil, inclusive essa foi uma falsa alegação criada pelo Instituto de Pesquisas Econômicas de Munique - IFO.

Baterias jamais devem ser descartadas no lixo. De acordo com a Nature, antes de ir ao descarte, as baterias usadas pelos veículos são passíveis de reciclagem em 3 níveis: primeiro, a reutilização em outros locais menos intensivos; em seguida, a reciclagem dos elementos químicos das células; e por último, a recuperação da carcaça e demais elementos residuais. São relevantes as dificuldades, ainda é preciso transpor várias questões para atingir um nível de "ciclo fechado" de reciclagem, mas não é impossível de ser alcançado.

Um exemplo disso são as baterias comuns de chumbo-ácido, onde até mesmo aqui no Brasil, já possuímos uma cadeia de logística reversa muito bem estabelecida. No exterior já existem algumas empresas que usam técnicas de reciclagem das baterias de lítio em que até 80% do material é recuperado. Reaproveitando seus materiais, acaba se tornando um ciclo quase fechado de produção das baterias novas.

Esse é um mercado que será agitado nas próximas décadas. Será questão de tempo para que surjam fábricas, pontos de trocas e reciclagem de baterias. Assim como hoje existem pontos de trocas de óleo. No dia em que surgir uma próxima geração de baterias de grafeno ou de estado sólido, mais baratas, leves e com maior capacidade, será o prego no caixão dos carros a combustão. As pessoas vão migrar definitivamente para os elétricos. Entretanto, eu acredito que essa possibilidade ainda levará algum tempo.

Risco de fogo? e enchente?

Estatisticamente, a ocorrência de incêndio em carros a combustão é, em proporção, 11 vezes maior. Carros de qualquer marca e motorização pegam fogo diariamente, e para a mídia clickbait, as notícias negativas rendem muitos cliques.

Sim, há registros de alguns Teslas que pegaram fogo espontaneamente sem bater, casos muito isolados. É sempre após uma colisão muito grave. Atribui-se a falsa impressão que a bateria do carro elétrico explode em incêndios em segundos. Não é verdade. Quando a bateria entra em combustão, o incêndio é lento, gradual, demorado e difícil de controlar.

Outra falsa impressão é ao enfrentar enchentes. O carro elétrico possui seus componentes externos selados. Desde que a água não invada o habitáculo do veículo, o risco de pane com um carro elétrico é o mesmo de pegar um calço hidráulico com um carro comum.

Cenário no Brasil

É fato que no Brasil que é extremamente caro e não compensa ainda. Carro elétrico aqui é um mercado de nicho muito restrito e sem nenhuma produção local. É totalmente inviável para o cidadão comum.

Cogitou-se criar um absurdo Projeto de Lei PLS 454/2017 - criando uma cota gradual de 10% de carros elétricos a partir de 2030, até atingir o ponto de proibir a venda de carros a combustão a partir de 2060. Eu discordo dessa proposta. Não gostaria que a mudança venha da noite pro dia numa canetada do governo, acredito que a natural competitividade no mercado gradualmente vai levar o consumidor a fazer suas escolhas no melhor momento. Ou seja, o próprio consumidor deve escolher o que for mais vantajoso.

Segundo o relatório da EPE/Min. Minas e Energia, a energia hidrelétrica ainda representa 65% da eletricidade do Brasil. Outros 26,7% vem das termelétricas na sua maior parte é produzida com gás natural, e biomassa de bagaço da cana. O restante da geração é 7,6% eólica, 2,5% nuclear e 0,5% solar. Dados do final de 2018, mas estão crescendo a cada ano.

É notável o surgimento do mercado de empresas que estão instalando painéis solares nas fábricas, galpões, e nas residências. A produção nacional desses kits está no começo, e com impostos mais baixos, os tornarão mais competitivos.

Cenário na Europa

Mesmo nas condições da Europa, os VE não são baratos, mas são relativamente acessíveis ao cidadão comum. Para optar por um carro elétrico, é necessário considerar o perfil de condução e os custos do uso do carro ao longo dos anos para valer a pena.

A Europa não possui os recursos naturais que possuímos, lá eles recorrem às termelétricas em grande parte. Há acordos pra banir as termelétricas na década de 2030, embora que esta seja uma transição bastante lenta e gradual. Na Alemanha isso já está em andamento. Lá, a maior parte da matriz elétrica é abastecida pelas usinas termelétricas de carvão. Há uma determinação para que na próxima década, estas usinas serão descomissionadas e substituídas por outras fontes mais limpas. Em outros países, como a França, a eletricidade provém de usinas nucleares.

A Noruega é outro caso interessante, lá existem as duas opções em abundância (petróleo e hidrelétrica), ainda assim o governo incentiva a migração para carros elétricos. Hoje a maioria dos carros vendidos já são elétricos.

Para os governos desses países, uma razão fundamental é cortar um pouco a dependência de petróleo dos árabes, visto que muitos países são dependentes dos mesmos. Obviamente não há sentido em ser dependente de um único recurso. Quanto mais diversificada a matriz energética, melhor.

Futuro

Considero que o motor a combustão, na sua forma "pura", já atingiu o ápice do seu desenvolvimento. Nos novos projetos, para "espremer" mais eficiência, acaba-se agregando uma parafernália de acessórios, compressores, sensores, atuadores que no fim das contas o torna descartável e impossível de dar manutenção.

O motor a combustão mais eficiente disponível, o Mazda SkyActiv-X, só alcança 56% de eficiência térmica, o que ainda não chega nem perto de um elétrico. Outras empresas como Koenigsegg, BMW, Mercedes e Fiat também desenvolvem projetos bastante interessantes, mas ainda estão em fase de protótipo ou são para uso restrito a pista.

O híbrido é a solução que une o melhor dos dois mundos, o útil ao agradável: a eficiência e economia do elétrico, com a autonomia da combustão na estrada em viagens longas.

Uma opção interessante que ainda vai manter os motores a combustão rodando por muitos anos é o álcool, que é renovável, dá para ser produzido sempre que houver demanda, e ainda traz o benefício da captura de carbono do ar.

Já sobre o hidrogênio, não vejo como solução viável. Ele tem muitas desvantagens: gasta-se muita eletricidade para produzir pelo processo de hidrólise. É difícil de armazená-lo, requerendo cuidados especiais, pois deve ser mantido refrigerado no tanque.

Join In

Comments (3)

  • Otimo texto! Explicou e desvendou tudo! Aqui na Europa ha um grande incentivo por parte do governo para quem quer comprar carro eletrico, ha insencao de impostos. Ja ha muitos pontos de recarregamento do carro eletrico, nas ruas, nos centros das cidades e tambem nas estradas. Onibus e treins tambem ja funcionam de forma eletrica ha bastante tempo.Realmente ha algumas ocorrencias de explosao desses carros.

    Varias marcas fortes como bmw, audi e Mercedes estao ainda em fase de desenvolvimento e pesquisa, enquanto que a toyota aqui na europa nessa parte de eletricos ta mais avançada e melhor. O Hibrido eh com certeza uma otima soluçao mas tanto o hibrido como o eletrico aqui na Europa tambem sao caros e nao acessiveis aos cidadaos comuns ainda. Varias empresas recebem inumeras vantagens para que eles comprem esses carros para disponibilizar pros seus diretores e empregados como carro da empresa. Tambem o empresario individual, autonomo e o pequeno empregador dispoe dessas vantagens ao adquirir esses carros.

    Outra coisa que esta em alta por aqui eh que nos centros de muitas cidades nao se pode mais acessar de carro mas so de transporte publico, a pé ou bicicleta. Por menos poluiçao!

      9 months ago
  • Desmistificando os carros elétricos. Leia agora na DriveTribe Brasil. @tribe

      9 months ago
  • Excelente texto!

      9 months ago

YOU MIGHT ALSO LIKE

Post sponsored by

Have you ever used an OBD tool to diagnose your car or clear fault codes?
The Mazda MX-5 still delivers old-school thrills with the perfect modern facade
Mercedes EQC 4x4²: Off-road totalmente elétrico
100 mil unidades do VW T-Cross produzidas no Brasil
3